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  • Foto do escritorRenan Soares

Show de metal em eventos geek: viável ou arriscado?


Massacration se apresentando no Supercon - Recife


Houve um tempo que se alguém chegasse com a ideia de colocar um show de metal como atração de um evento geek, essa pessoa seria chamada de doida. Mas, felizmente, os tempo mudaram e hoje em dia os produtores de tais eventos perceberam que o público metaleiro e o público geek convergem em bastante coisas (não em todas, deixando claro).


Com isso, começou a ocorrer de uns anos para cá dessa ideia começar a ser praticada, e um evento específico que costuma trazer bandas de metal para o seu palco com frequência é o SANA, de Fortaleza (CE).


Recentemente, outro tradicional evento geek do Nordeste a colocar bandas de metal entre suas atrações foi a Supercon, tendo realizado shows do Matanza Ritual e do Massacration na sua edição realizada em João Pessoa (PB), e repetido a dose na edição de Recife (PE), a qual compareci nesse último fim de semana.


Antes de seguirmos com o texto, quero deixar claro que esse texto não se trata de uma resenha do evento em questão, e sim de uma reflexão me baseando em tudo que presenciei não apenas na Supercon, mas também em outro evento geek tradicional aqui de Recife chamado Anima Recife, mais especificamente referente a edição de 2020, que contou com o Detonator (solo) entre as atrações.


Bom, depois dessa enrolação toda, vamos para o ponto principal desse texto: colocar bandas de metal em eventos geek, é algo viável ou arriscado?


E por que estou perguntando isso? Vocês vão entender agora.


Vou iniciar relatando o que vi no Anima Recife de 2020 (ocorrido em janeiro daquele ano, ou seja, antes da pandemia da Covid-19 estourar), onde o Detonator foi a atração que encerrou o último dia do evento no Clube Português, tendo ele se apresentado em um formato simples, sem banda, e cantando por cima de instrumentais pré-gravados. Detalhe esse que não fez o público presente se desanimar, tendo a plateia aberto insanas rodas punks durantes as apresentações.


E é aqui que eu chego no X da questão: As rodas punks. Pois nesse evento em questão, a organização tentou coibir os moshs durante a apresentação, o que teve resultado por um breve momento, pois no fim do show a galera voltou a abrir rodas.


Enquanto na Supercon desse ano, realizado nesse último fim de semana no Ginásio do Geraldão, no início da apresentação do Massacration o próprio Detonator pediu duas vezes para o público não abrir roda punk naquela noite, sob a justificativa da presença de crianças no local. Pedido esse que não foi atendido, tendo a galera inclusive intensificado as rodas, tendo o Detonator desistido de tentar controlar, mudando o discurso para que as crianças não se aproximassem da área onde ocorria a roda. Enquanto o Matanza Ritual, que se apresentou na noite anterior, nem se preocupou com isso e incentivou que as rodas acontecessem.


E aqui inicio a minha reflexão: como todos sabem, as famigeradas rodas punks são algo cultural já impregnado na música pesada em geral, principalmente nas vertentes mais extremas do estilo, e quem é de fora do metal se assusta ao ver um mosh pit pela primeira vez por conta da intensidade que os mesmos ocorrem.


Também sabemos que esses eventos geek em geral são divulgados como se fossem um programa de diversão "pra família", onde grande parte do público são jovens de 30 anos para baixo, incluindo principalmente crianças e adolescentes, e certamente, muitos que estão ali nunca sequer já foram em um show de metal. Ou seja, o choque de cultura é inevitável nesse momento.


E agora irei entrar em um ponto delicado, e por isso quero deixar claro que o que eu vou falar não é uma crítica nem ao Matanza Ritual e nem ao Massacration, que são duas bandas as quais curto bastante, estou apenas propondo uma reflexão me baseando em questões "técnicas", por assim dizer.


A partir do momento que um evento tem a pretensão de ser um programa "de família", já é incoerente colocarem bandas como o Matanza Ritual e o Massacration na programação, cuja as letras passam longe de serem "family friendly".


O caso do Massacration é até um pouco mais complexo, porque o próprio Bruno Sutter se firmou bastante entre o meio geek e há muito tempo que ele próprio participa de eventos do tipo, seja como ele mesmo ou como o Detonator, e muito provavelmente por isso ele tem colocado cada vez mais um teor "family friendly" em seus trabalhos mais recentes. Mas, isso não muda o fato que as principais músicas do Massacration são aquelas que se consolidaram na época do Hermes & Renato na MTV, as quais sabemos muito bem que possuem um humor bastante adulto (a faixa 'Metal Bucetation' não me deixa mentir) e que eles nunca deixaram de tocar mesmo em eventos do tipo. Enquanto o Matanza Ritual nunca teve temática "family friendly" e nem faz questão de ter.


Ou seja, se o evento fosse levar o termo "family friendly" ao pé da letra, nem sequer colocaria atrações do tipo na sua programação (claro, o que estou falando nesse momento não se aplica para o Angra ou o Edu Falaschi, por exemplo, que tocam frequentemente em eventos geek e suas letras não abordam temáticas pesadas).


"Ah, mas normalmente o show é sempre a última atração do dia, ou seja, só fica lá quem quer ver" você pode argumentar, e em partes você estaria certo. Mas não podemos esquecer que isso não inibe um menor de idade de permanecer ali para ver a apresentação, até porque o show está incluso no ingresso que a pessoa paga, é diferente de um show solo da banda, onde menores só poderiam entrar acompanhado de responsáveis (ou dependendo do caso, nem sequer poderiam entrar).


"Tá Renan, então para você a solução seria proibir atrações de metal em eventos geek?" - Não!


Eu não acho que se deva proibir shows do tipo em eventos do tipo, porque querendo ou não, eles trazem vantagens muito boas para a cena. A primeira dela é o preço do ingresso mais acessível, e usarei o Matanza Ritual como exemplo, pois esse se apresentou em Recife em show solo no ano passado, enquanto a última vez que o Massacration se apresentou na capital pernambucana foi no longínquo ano de 2006.


No show realizado em 2022 aqui em Recife, o ingresso do Matanza Ritual custou entre 160 e 80 reais (isso sem falar no pacote meet & greet), enquanto na Supercon os fãs puderam ver o mesmo show com os valores entre 40 e 80 reais, ou seja, a metade do valor que foi no show solo deles, e ainda tinha acesso a todas as outras coisas que o evento proporcionava.


E outra vantagem também é deixar o metal mais acessível para as novas gerações, principalmente nesse momento em que o Rock em geral está em baixa no mainstream, e as bandas de metal se apresentarem em eventos geek é uma ótima porta de entrada.


"Então qual seria a solução?"


A longo prazo, eu confesso que não sei, e convido todos a pensarem a respeito disso e sugerirem possíveis soluções. Mas a curto prazo eu sugiro o óbvio, que é a conscientização de todos que irão para os shows nesses eventos de como funciona um show de metal, e irem preparados para isso. Além de também dos pais dos menores de idade sempre estarem de olho no que os filhos estão consumindo e os guiarem da forma mais sábia e menos repreensiva possível.


E os organizadores dos eventos precisam ter consciência de isso tudo que estou citando aqui, para assim eles sempre pensarem em como eles querem que o evento deles seja, e se eles querem certo tipos de comportamento nos mesmos. Porque sinceramente, se for chamar banda de metal pra se apresentar e proibir a galera de fazer mosh, o melhor seria nem chamar pra início de conversa.

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