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  • Foto do escritorPedro Galvão

Resenha: Festival Abril Pro Rock 30ª Edição: 1º Dia (2023)


Crédito: Henrique Costa

Após dois anos sem edições (2020 e 2021) em consequência da crise sanitária global que atingiu o mundo e uma edição prévia em 2022, o maior festival de música alternativa do Norte Nordeste retorna para a alegria do público nordestino que adora Heavy Metal, Punk e Hardcore.

Crédito: Henrique Costa

No último sábado 13 de maio, os pernambucanos do Imflawed abriram o primeiro dia da trigésima edição do Abril Pro Rock, festival de música que há três décadas faz parte do calendário de quem curte música pesada no Nordeste. O palco do Clube Português foi dividido em dois, sendo um frontal/principal e outro lateral/secundário. O Inflawed é um trio de Thrash Groove que está divulgando seu primeiro álbum oficial ‘The Dark Ages’. A apresentação começou um pouco antes do horário previsto, e apesar do som um pouco embolado e do público tímido em quantidade no início, o trio mostrou muita atitude e entrosamento no palco. Importante pontuar que o Imflawed vem se destacando, além da sua música autoral, por promover shows underground em bairros periféricos do Recife. Uma iniciativa admirável para levar movimento underground para além dos centros urbanos.

Crédito: Henrique Costa

Enquanto o Torture Squad se preparava para iniciar seu show, na entrada do Clube Português, a fila para trocar ingressos estava aumentando. A demora para a troca gerou reclamações e algumas pessoas ficaram descontentes porque não conseguiram ver o show completo dos paulistas. Abrindo o palco principal, o quarteto mostrou uma boa performance liderados pela excelente vocalista Mayara Puertas. A qualidade do som melhorou, porém os instrumentos continuavam desnivelados em termos de volume, nesse caso a guitarra estava muito alta. No repertório, algumas músicas recentes da banda se alternaram com composições mais conhecidas como ‘Unholy Spell’, ‘No Escape From Hell’, ‘Return Of Evil’ e ‘Horror and Torture’. Ao final da apresentação do Torture Squad, o público já preenchia quase toda pista do Clube Português.

Ainda no palco principal, o terceiro show da noite foi do The Troops of Doom, quarteto de Minas Gerais liderado pelo ex-Sepultura Jairo “Tormentor” Guedz. O público já dominava a pista inteiramente. The Troops Of Doom fez um show com poucas falas entre as músicas, manteve um ritmo acelerado e mesclou em seu repertório faixas do primeiro álbum ‘Antichrist Reborn’, do recém lançado EP ‘Prelude to Blasphemy’ e faixas da época do Jairo no Sepultura como a própria ‘Troops Of Doom’. Ótima estreia dos caras em solo Recifense.


A feirinha do festival estava muito atrativa e diversificada: stands de camisas de bandas e de temáticas que agradam o público presente, piercing, cds, livros, vinis, faziam com que a área estivesse praticamente bem frequentada, mais ainda nos curtos intervalos entre um show e outro.

Dando continuidade evento, o Deathcore do Karnficyna subiu ao palco secundário para destilar músicas pesadas, técnicas, rápidas e com os famosos breakdowns deste subgênero. O quarteto com membros da Paraíba e Pernambuco foi um pouco prejudicada pois o som estava baixo, e quando aumentaram o volume, exageraram na dose. A impressão foi que o show começou com o som do palco e depois ligaram o sistema de PAs. Isso não atrapalhou a performance do Karnficyna, a banda foi muito competente.

Crédito: Henrique Costa

Despois do Metalcore, foi a vez do Hardcore de uma banda veterana que já podemos considerar clássica no Brasil: Mukeka di Rato. Os capixabas instigaram o moshpit com músicas velozes, alternando momentos com mais groove em composições que mesclam o hardcore com reggae e letras politizadas. 'Milico', 'Cachaça', 'Coração Sapato', 'Luzia', 'Rainha de Magnata', 'Facada', 'Minha Escolinha' e 'Boiada Suicida' estiveram presentes no repertório do Mukeka di Rato que teve a segunda melhor sonorização da noite, atrás apenas do Devotos.

Crédito: Henrique Costa

Eis que surge o momento da banda mais pedida pelo público na noite. O quarteto feminino do Crypta surge com seu Death Metal insano. É impressionante a presença de palco de todas as integrantes. Não param um minuto de agitar e entregam uma performance de nível mainstream. E a Fernanda Lira? Quanto carisma! O repertório foi baseado no único disco de estúdio, Echoes Of The Soul, lançado em 2021. 'Starvation', 'Kali' e 'From The Ashes' são inimagináveis fora de qualquer repertório futuro da banda pela potência dessas composições. Uma pena que a sonorização estava ruim. O leitor deste texto deve ter percebido qual foi o maior ponto negativo do primeiro dia de fest.

É uma missão muito difícil para qualquer banda e em qualquer festival no mundo tocar após a Crypta. Porém o trio feminino da The Damnnation mostrou uma performance muito firme, entrosada e executando um Thrash Death Metal com doses de tudo de melhor que compõem estes dois subgênero do Heavy Metal: velocidade, peso, cadência, técnica e agressividade. O trio de São Paulo atualmente está divulgando seu primeiro álbum de estúdio: ‘Ways Of Perdition’.


O Abril Pro Rock tem sido um festival que não tem medo em se posicionar politicamente. O idealizador e produtor de evento, Paulo André Moraes, em várias entrevistas não teve receio em repudiar o machismo, a misoginia, a homofobia e o neofascismo brasileiro alimentando pelo ex-presidente da república e seu rebanho de gados. Cada vez mais a presença de bandas com integrantes mulheres tem obtido espaço no evento. Em 2023 o evento contou como um dos apoiadores o Sindicato dos Servidores do Judiciário e juntos promoveram uma campanha de conscientização sobre Assédio Moral. São poucos eventos de entretenimento que se preocupam com o bem estar do trabalhador. Abril Pro Rock faz algo diferente do que é visto no restante do Brasil em termos de festivais de música.

Os estadunidenses do Incantation foram a oitava banda a se apresentar. Liderados por John McEntee, os veteranos do Death Metal foram muito aclamados pelo público presente, que se encontram em turnê comemorativa de 30 anos de atividades. Faixas da extensa discografia do quarteto, composto por doze álbuns de estúdio, foram executadas com maestria "puxando" a atmosfera local para o lado sombrio da força. John McEntee se mostrou um artista muito simpático tanto nos palcos quanto fora dele. Incantation e Crypta estão em turnê pelo Brasil e de Recife partiram para Fortaleza para completar a metade desta tour.

Em seguida, os potiguares do Open The Coffin se apresentaram no palco secundário exibindo um Death Metal Old School da escola Sueca com aquela sonoridade que lembra uma motosserra. O vocalista da banda Cláudio Slayer é um show à parte. Segurando uma pá, em muitos momentos o vocalista imita um coveiro jogando areia na “cova aberta”. A banda segue divulgando o álbum lançado no ano passado: ‘The World Is a Casket’.

Depois do Death Metal, novamente foi a vez do Punk Rock Hardcore do Devotos no palco principal. Liderados por Canibal, o trio executou faixas conhecidíssimas do público pernambucano que instigaram um grande moshpit na pista do Clube Português. ‘Tem de tudo’, ‘Vida de ferreiro’, ‘Punk Rock Hardcore’, ‘Roda punk’, ‘Futuro Inseguro’, ‘A vida que você me deu’, ‘Eu tenho Pressa’, estiveram presentes no setlist do Devotos que contou com a melhor sonorização da noite. Devotos e Ratos de Porão são bandas que podem tocar muitas vezes que o público não vai reclamar, pois sabem que é garantida a entrega de um show instigado e divertido.

Após o show da Devotos o público já demonstrava cansaço, muitas pessoas sentadas nas áreas laterais do pavilhão o que era completamente compreensível porque até aquele momento dez bandas haviam se apresentado. Coube ao Obskure, direto de Fortaleza, Ceará, manter o público atento e o quinteto nos brindou com uma performance competente, digno de que está na ativa desde 1989 tocando Death Metal.

Encerrando a noite, a lendária Dorsal Atlântica, na ativa desde 1982, surge no palco principal com muita disposição e falas politizadas e conscientes entre uma música e outra. Sob o comando de Carlos Lopes, que se apresentou tocando numa incomum guitarra baiana, o trio carioca executou faixas de álbuns clássicos como Antes do Fim (1986) e Dividir e Conquistar (1986), além do mais recente registro de estúdio Pandemia (2021). Dorsal foi uma surpresa para os headbangers nordestinos, visto que o trio não é de fazer muitos shows, passando períodos longos sem tocar ao vivo. A grande maioria os prestigiou pela primeira vez.


O primeiro dia de festival trouxe um público animado e disposto a curtir tudo que o Abril Pro Rock oferecia. Foram pouquíssimas ocorrências, entre elas uma briga e alguns furtos de celulares. Em um determinado momento, no ápice do público, as filas para comida ficaram longas, causando reclamações e deixando evidente que poderiam ter mais oferta para conter a demanda. O pior ficou por conta da sonorização. Muito se fala em Recife que o problema é a acústica do local (Clube Português), porém os shows do Mukeka di Rato e Devotos provaram o contrário. O saldo deste primeiro dia é positivo, sem dúvidas, mas com pequenos ajustes poderia ter sido bem melhor.



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