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Entrevista com Natanael Junior, produtor do MOA (Maranhão Open Air)



-Vamos começar do início, como você começou na produção de eventos?

Natanael Junior - Então, primeiro lugar agradecer o convite em participar dessa entrevista. É um prazer estar falando com você e seus leitores e explicando tudo para que as pessoas possam conhecer um pouco mais do evento do festival do que rolou. Enfim, um pouco mais da cena do Maranhão. Então vai ser um grande prazer. Então eu comecei na produção de shows na década. 90. Eu comecei tocando na banda Ansia de Vomito. Era uma banda local, aqui. A banda começou em 91 e conseguiu destaque nacional, algumas turnês. Tocamos com Exodus, chegamos a tocar Setembro Negro na década de 90. Então a gente começou a circular ali no cenário underground. E começou na época a criar uma rota de shows com bandas da região, primeiro aqui da cidade. Até que em 97 a gente fez o primeiro show de grande porte para época que foi o Dorsal Atlântica, que, pô, lotou o teatro, deu sold out, e foi muito marcante. Desde 94/95, mais ou menos, atuamos na produção de show na cidade de São Luís, fizemos também produções de shows em Teresina e Belém, até pela localização por conhecer a galera da região e do mercado de produção de eventos, conseguimos trazer bandas como Krisiun, Angra, Shaman, etc.


-Quais as dificuldades de se produzir um evento no pós-pandemia? Pra você, a pandemia deixou marcas na indústria de eventos? Quais?

Natanael Junior - Então, a pandemia praticamente quebrou o mercado cultural no Brasil. Estacionou de tal forma que quem trabalha com o público, os artistas tiveram que se reinventar, houveram muitas lives. Nós chegamos a fazer algumas lives na nossa antiga casa de shows Fanzine, também realizamos três festivais online para dar um aquecimento e não deixar a chama apagar. Logo após a liberação para eventos, nós fizemos o Manifesto Rock com 17 bandas, dois dias de festival, com Fábio Lione e Marcelo Barbosa, Oitão, Multilator, Corja, Azul Limão e bandas locais. O festival serviu até de teste para preparar o Moa neste ano, pois o festival foi em novembro também. Era um período recente e ainda de muitas incertezas, mas fizemos seguindo todos os protocolos e deu tudo certo, sendo um ponta pé inicial para trabalhar o MOA neste ano.


-O que o público pode esperar do evento deste ano?

Natanael Junior - O público pode esperar um festival pé no chão, nós aprendemos com os erros, que um dos principais foi a logística para suportar o festival quanto a localização, translado, etc. Dessa vez decidimos centralizar, o local do show será em um hotel, então as bandas chegam no aeroporto vão direito para o hotel, tocam no festival e voltam e ficam no quarto. O que já minimiza bastante os riscos de estresse de produção, tudo isso. É um festival com atrativo turístico, num hotel 5 estrelas. A ideia foi até inspirada no Psycho Las Vegas, que a galera fica curtindo o som, piscina rolando, e aqui temos o atrativo maior que o hotel fica na beira da praia. Vai ter uma tenda de merchandising para todas as bandas do evento, praça de alimentação, bebidas, nada além disso. É um festival com atrativo das bandas, fizemos um cast dentro da realidade do mercado com bandas de renome tanto nacionais quanto internacionais. Mas a ideia é de retomar a marca, aos poucos engradecer o festival, resgatar a confiança do público no evento. O objetivo é esse, um festival pé no chão e bem executado, de fácil acesso, bem localizado do centro da cidade, com uma estrutura boa de hotéis a preços acessíveis. Então a galera pode colar que vai ser um evento que vai ser entregue do jeito que está sendo ofertado.


-Do seu ponto de vista, quais foram os problemas que rolaram na última edição? Quais os principais desafios que você enfrentou como produtor?

Natanael Junior - Então a principal dificuldade foi a escolha do local, pois quando nós fechamos o festival seria Wacken Rock Brasil, então veio produtor da Alemanha e o próprio Felipe Negri, nós escolhemos um local que fica a 30km do centro da cidade onde no mês de setembro sempre acontece a Feira de Exposição, que tem exposição de gado de raça e também apresentações de shows. O local que se assemelhava muito a fazenda que acontece o Wacken, acreditamos ser o local perfeito. Porém a distância, o acesso complicado, bairro periférico da cidade, período de chuva intenso que foi no mês de abril, além da desconfiança gerado pelo festival ser no Maranhão. Então, nós sofremos ataque direto, até da imprensa daqui, o principal ataque foi o estábulo, que veiculou na época que as pessoas estavam dormindo em estábulos com fezes de animais, sendo que não é verdade. O local não é um estábulo, o Parque de Exposição é uma área coberta do parque, que foi higienizado pela prefeitura, através do centro de controle de zoonose, trocou toda areia e pintou. Os animais que são expostos são de raça e ficam expostos uma vez ao ano, bem tratados, que acontece em setembro, e o festival aconteceu em abril, então não tinha nenhum vestígio de fezes ou condições insalubres. Então a galera ficou de boa, até preferiu o camping com área coberta àquele camping aberto tradicional. Porém a imprensa local por questões locais também começou a bater nesse ponto, que as pessoas estavam jogadas, que não tinham banheiros químicos, sendo que tinha 260 banheiros químicos atestados pela justiça, dizendo que milhares de pessoas tinham sido assaltadas. Transformaram o festival em um caos que não deu para segurar porque era muita pressão midiática em cima no momento difícil que não tinha o celular para rebater. A imprensa falou que o Megadeth não tinha tocado, que o som não existia, que as bandas tinham cancelado, sendo que na sexta feira aconteceu normalmente, quando amanheceu no sábado foi um caos que não deu para segurar realmente.


-Como vocês pretendem superar a desconfiança das pessoas por conta da edição de 2012?

Natanael Junior - Sempre houve um desejo de terminar o que eu comecei há 10 anos atrás. Mas foi um baque muito grande, eu perdi quase 2 milhões na época. E isso demora tempo, você vai se recuperando de um processo na justiça, no qual fui inocentado, a partir disso, em 2020, eu comecei a trabalhar na reformulação do festival, de entregar, questão de seguro, aí veio a pandemia que atrasou tudo. Isso dificultou bastante. Na retomada, desde dezembro pensamos no formato de um festival que entregasse um bom festival, com um bom cast , na região central que abrange norte e nordeste, com preço acessível de ingressos. E mostrando o que aconteceu de fato, na época eu fui crucificado a imprensa, mais do sul e sudeste não teve acesso as informações reais e então ficou uma versão falaciosa do que aconteceu. E no momento também não adiantava me explicar se não tinha um posicionamento oficial da justiça. A partir do momento que teve o posicionamento da justiça, nós nos posicionamos e as pessoas foram percebendo de fato o que rolou. E a intenção de fazer com o mesmo nome mostra que o objetivo nunca foi enganar ninguém ou mascarar a realidade. Sabemos do problema que aconteceu e trabalhamos intensamente para resolver. Esse festival temos como objetivo entregar dois dias com um cast menor, até porque a diferença do valor de dólar é muito grande, na época do festival em 2012 o dólar estava 1,08 e hoje está 5,13, o que dificulta muito. Mas é algo que nós vamos crescendo e ganhando credibilidade para transformar o MOA num grande festival do norte e nordeste.


-Quais foram os critérios para contratação das bandas e quais protocolos seguiram?

Natanael Junior - Nós sabemos que o momento do país é complicado, pós pandemia, com alta do dólar, então optamos por um cast pé no chão mas porém de bandas de grande relevância, como Mayhem, I am Morbid, que é o praticamente Morbid Angel, o próprio Dorian, Richie Ramone, Ambush, Omen, Satan que é uma banda da década de 80, contemporânea do Iron Maiden, começou do movimento NWOBHM. Então nós mesclamos com bandas nacionais de renome como Edu Falaschi, Shaman e bandas do undergound que estão despontando como Desalmado, Rebellium... Gangrena Gasosa que é muito esperada, que nunca tocou em São Luís. Dorsal Atlântica que faz mais de 25 anos que não vem. Pensamos num cast homogêneo, valorizando bandas nacionais, internacionais e também bandas regionais para compor isso, o festival então contempla todos os estilo dentro da música pesada, esperamos que o público possa curtir, até porque conhece a maioria das bandas, isso vai dá um tempero legal, reativar a marca, com um grande cast.


-Você daria alguma dica para quem quer começar a produzir eventos também?

Natanael Junior - O underground precisa continuar, precisar sobreviver. A grande mídia, os grandes gêneros musicais atuais populares têm muito capital envolvido por trás na compra de espaço. Toda uma indústria cultural que o metal acabou voltando para o undergound. Então essa chama do underground deve continuar, a galera que acredita no heavy metal tem que engajar, tem que fortalecer, tem que ser perseverante, não desistir, e se profissionalizar, estudar o mercado. O Brasil sempre foi difícil essa questão técnica operacional já deu uma alavancada legal, pelo nordeste ainda tem uma diferença mas a cada ano essa diferença encurta. Amar de verdade pelo heavy metal, lutar por ele, não deixar a chama apagar, as dificuldades vão e vem, mas os headbangers são eternos.


-Estamos finalizando a entrevista. Gostaria de mandar um recado pra galera?

Natanael Junior – Mari, quero agradecer pelo espaço, legal esclarecer e divulgar o festival. Obrigado pela oportunidade. Dizer para galera colar no festival, pode acreditar que vai rolar, esse festival vem sendo trabalhado desde dezembro, estamos com 75% do festival todo pago, nessa reta final vamos acertar tudo, o hotel é legal, a estrutura é legal. É importante para o nordeste ter um festival como MOA porque encurta a distância de um grande evento, que sempre rola no sul e sudeste. Então é legal tem mais para o norte e nordeste um festival desse porte, a galera acreditar que o Moa vai valorizar muito o metal do underground nordestino, e a galera pode colar que vai rolar.



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